Edifício Bila – “O bom filho retorna à Ribeira”
Edifício Bila, por Guto de Castro
No texto “O bom filho retorna à Ribeira”, o jornalista Guto de Castro descreve seus sentimentos com relação ao edifício que se tornou um símbolo da “revitalização” do bairro histórico. Em tempo, Guto escreveu o texto à época da inauguração no “novo” Bila, há três anos.
“Outro dia recebi um convite do poeta e multimídia Raimundo Pedro, figura das mais interessantes desta velha Ribeira Guerra, para escrever algumas linhas sobre obras de restauração do Edifício Bila. E logo eu que não gosto de conversar… pouco. Aliás, quando entro no asssunto pago para não sair. Mas, com penas das crianças que certamente irão ao evento de inauguração do Bila, poupei o verbo e citarei a seguir alguns trechos do poetinha Vinícius de Moraes sobre o retorno à antiga edificação, à casa materna.
”Há, desde a entrada, um sentimento de tempo na casa materna. As grades do portão têm uma velha ferrugem e o trinco se oculta sob o lugar que só a mão filial conhece. O jardim pequeno parece mais verde e úmido que os demais, com suas palmas, tinhorões e samambaias que a mão filial, fiel a um gesto de infância desfolha ao longo da haste”.
Penso que voltar à Ribeira seja sempre esse retorno à casa materna. É como encontrar a infância há muito perdida. É reviver antigas lições narradas pelos nossos avós, pelo tempo e uma gente muito boa que partiu dessa para uma outra Ribeira muito além da nossa mais fértil imaginação.
E quando olho a cidade alargada nos seus quadris, vitima dessa gravidez urbana sem planejamento, sinto uma dor infinita. Há tanta gente esquisita, tanta gente falando o que não compreendo. Em Ponta Negra, por exemplo, a gente tem que falar inglês para pedir “ginga com tapioca” ao dono da bodega.
No meio dessa Torre de Babel, que virou Natal, encontro pessoas preocupadas em preservar a memória potiguar. Esses heróis da resistência estão “rehabitando” a Ribeira. E isso é bom para o bairro e para a alma da cidade. Para servir os moradores, chegarão as lideranças, as padarias, as sorveterias, as confeitarias, os sapateiros, os dentistas, os médicos, a Lan House – enfim, uma série de serviços que outrora saíram daqui. Quem sabe não recuperamos nossas velhas e mais autênticas origens. A verdadeira origem de um ser potiguar.
É bom voltar a morar na Ribeira, passear na Cidade Alta. Quem sabe voltar a assistir a filmes no antigo cinema Nordeste, Rio Grande e comer um picado com cuscuz na feira do Alecrim no dia de sábado. A vida para os lados adiante, aonde a cidade vem devorando dunas e rios, não está essa coca-cola toda. E chique mesmo é morar na Ribeira como se morava docemente nos tempos mais antigos, pelos séculos e séculos atrás, amém.
Que Deus abençoe a todos que estão regressando à casa materna”. (Guto de Castro).
A T U A L I Z A D O P O R E L I A D E P I M E N T E L




