(Re)cortes de Nalva Melo

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Nalva nunca ensaiou para ser cabeleireira. Aprendeu tudo por intuição. Conheça a história dela, que é mais bonita que qualquer salão de beleza.
Por Melina França
Fotos: Elpídio Júnior e arquivo pessoal

(Matéria publicada no Portal No Minuto, em http://www.nominuto.com/vida/cultura/re-cortes-de-nalva-melo/54243/).

Nalva Melo não precisa de um salão de beleza. Sua beleza é bem maior do que qualquer beleza de qualquer salão, poderia cantar para ela o compositor Zeca Baleiro. Ainda assim, é exatamente este tipo de empreendimento que Nalva tem. Um salão de uma beleza que põe mesa e que deita na cama: a beleza que come, a beleza que ama.
Ela nunca ensaiou para ser cabeleireira. Aprendeu tudo por intuição. Ainda menina, mudou de Lajes para a capital. Aqui, precisava ganhar uns trocados e logo arranjou um emprego como manicure no Tônia Instituto de Beleza. “Eu ficava fazendo as unhas das clientes e observando a cabeleireira de xereta. Até que um dia minha irmã me deixou cortar o cabelo dela. Fiz um corte bem alternativo: de um lado bem curto e do outro maior”.
A irmã de Nalva, por acaso, também era manicure no salão. “Toinha disse que eu tinha estragado o cabelo dela, antes longo e liso. Até que chegou uma cliente, apontou para a minha irmã e disse logo: quero igual”. E foi assim, meio por determinação do acaso ou do destino – quem sabe? – que Nalva se tornou cabeleireira. Depois do primeiro corte, passou outros três anos e meio no salão de Tônia. Saiu de lá para trabalhar na TV Tropical.
O emprego na televisão, diz, foi um grande encontro profissional. Foi lá também que Nalva aprendeu a maquiar. Ela conta que antes só sabia que o batom ia na boca e a sombra, nos olhos. Hoje, fala orgulhosa de seu avanço. Já está planejando criar maquiagens inspiradas nos movimentos artísticos – surrealismo, dadaísmo, cubismo, pop e op art.
Como passou a trabalhar longe de onde morava, terminou vendendo a televisão para comprar uma mobilete. Antes disso, Nalva chegava a pegar até oito ônibus por dia, entre as idas à TV e os atendimentos nas casas das clientes. Com a projeção que ganhou, o número de pessoas que procuravam seus serviços aumentou bastante.

Desde pequeno, o filho Yuri a acompanha no seu dia a dia

Foi nesta mesma época em que terminou grávida de um dos colegas de trabalho. Antes de o filho Yuri completar um ano de vida, no entanto, foi demitida. Quando ele tinha seis meses, em 94, ela montou seu próprio salão. Mais tarde, o espaço serviria também de café e espaço cultural. Aliás, o atual “Nalva Melo Café Salão” já abrigou de tudo: brechós, exposições, apresentações de teatro e música, exibições de cinema, festas de todo tipo, ou mesmo conversas de final de tarde regadas a cerveja gelada.
O início do empreendimento, contudo, não foi dos mais fáceis. O sócio de Nalva na empreitada chegou a tocar fogo no local por não querer dividir com ela os lucros do negócio. “Eu não tinha conta corrente na época, então todo o dinheiro ficava na conta dele. Quando foi a hora de dividirmos a quantia, ele não quis me dar nada. Disse que tínhamos que pagar as contas e, no fim, não sobraria lucro”.
O impasse foi acabar na delegacia, e logo a sociedade acabou. Nalva ficou com o salão e nele fez brotar os anseios da mente inquieta. Em 2001, depois de uma viagem à Áustria, resolveu transformá-lo radicalmente. Derrubou todas as paredes e criou um espaço totalmente diferente.
“Eu sou assim: sempre gostei de tirar as coisas do lugar”. Quando os donos do prédio, que era alugado, chegaram ao local, as exclamações acusando-a de louca foram instantâneas. Somente mais tarde Nalva viria a ser proprietária definitiva de sua “sala” no edifício Bila, na Ribeira.
E foi exatamente de lá que tirou grande parte de seu conhecimento intuitivo dos outros. Ela queria ser professora, mas terminou cabeleireira. “Costumo dizer que não me formei em pedagogia, mas em sociologia urbana. Quem me deu o diploma foi essa cadeira”, diz apontando para o móvel de onde ataca sem piedade [ou com extrema cautela] as madeixas da clientela.
O bom corte, conta, depende de toda uma análise. Como uma pessoa se veste, como se comporta, a forma como fala, os gestos… Tudo pode ser indicativo do que ela procura ao adentrar no salão. E com a fala mansa, os cabelos cacheados e tingidos [acobreados], o estilo chip&clean, Nalva continua a narrar sua história.
Conta do trabalho, porque “minha vida toda foi fruto de muito trabalho”. E fala com a sinceridade de quem sabe o amargor da necessidade. Nessa vida severina, contudo, conseguiu materializar os sonhos de menina crescida. Quando lembra do filho, abre um sorriso involuntário. “Hoje os papéis quase se invertem. Filho de mãe solteira tende a se preocupar mais com a mãe, não é? Yuri tem 16 anos, mas já é tão maduro. Não imaginava que tão cedo ele fosse se preocupar tanto comigo, cuidar tão bem de mim”.

Salão ganha café para abrigar conversas dos amigos

Espaço cultural

Nalva não gosta mais da farra como antigamente. Olhando fotos antigas, sorri: “estou ficando comportada. Olha como eu era”. Com as calças de cintura alta, os tops que deixavam a barriga a mostra e a cabeleira desgrenhada, eram comuns as fotografias em que aparecia se divertindo “com a turma”.Certa vez, os amigos estavam com vontade de brincar no Carnatal, mas não tinham dinheiro. Criaram então um novo bloco: o “Vai quem quer como quiser”. A amiga Bernardete Lago tirou as fantasias de uma mala que guardava em casa e todos saíram à caráter, com as roupas coloridas de quem sabe que nem todo carnaval precisa ter fim.

E foi das festas de noites eternas que nasceu o espaço cultural. “A gente ficava aqui bebendo, esperando a hora de descer para o largo da Rua Chile. Sempre íamos comprar uma cerveja. Com o tempo, o pessoal começou a querer estender a estadia, chamar os amigos… Daí surgiu o café. Daí para as apresentações culturais foi um pulo”. Tudo começou com uma exposição coletiva que reuniu artistas com oito participantes, entre eles, Guaraci Gabriel, Pedro Pereira, Marcelo Fernandes, Marcelus Bob, Zaia, Dickson Medeiros e o filho de Guaraci, Wendel Gabriel. Mais tarde, em 2009, eles realizariam a mesma exposição em comemoração aos 15 anos do espaço.Depois veio o projeto “Segunda Solo”, que trouxe a música para o local. Apresentações de teatro também se tornaram frequentes, principalmente pelo grande fluxo de artistas que passeia pela Ribeira. O bairro abriga o Teatro Alberto Maranhão e a Casa da Ribeira, duas das principais casas de espetáculo da cidade. Com a amizade com os integrantes do Cineclube Natal, as projeções cinematográficas também não tardaram.

De tanto que gosta de arte, chegou a levar o filho para um show de Mamonas Assassinas. Também foi maquiadora de experiências de Buca Dantas no Cinema Processo com “Fabião das Queimadas” e “Viva o Cinema Brasileiro”. O que a atraiu no projeto foi a liberdade lírica com a qual podia conduzir seu jogo de pincéis de maquiagem.”Tudo era produzido na hora, principalmente em ‘Viva o Cinema Brasileiro’. O ‘Fabião das Queimadas’ ainda tinha um roteiro, mas ainda asssim era maravilhoso. Pra mim foi um orgulho participar de tudo isso”, comenta.A criatividade foi também seu passaporte rumo à Áustria, em 2001. Lá, passou um mês criando penteados para uma comemoração do “Brasil na Áustria”. Uma das produções mais inusitadas foi uma peruca totalmente confeccionada com penas.Seu mais recente projeto são as maquiagens temáticas sobre os períodos artísticos. O resultado final será exibido na revista “Salto Agulha”, em parceria com a jornalista Gladis Vivane, que ainda está para ser lançada.Nos planos, Nalva vai com calma, embora continue a planejar o futuro. Por hora, trocou as grandes farras pela própria casa. Lá, costuma servir uma lasanha ao molho branco [sua especialidade] e uma cerveja sempre gelada aos amigos que por ventura vão visitá-la em Pirangi.Seja como for, com seu jeito calmo, sua intuição latente e sua sensibilidade artística que transparece, Nalva faz a cabeça de muita gente. Em tantos sentidos quantos couberem nesta frase. Sim, sua beleza é bem maior do que qualquer beleza de qualquer salão.


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